O som das ondas e dos nossos gemidos
Eu devia ter sabido que aquela noite não terminaria normalmente.
Tinha algo no ar diferente desde o fim da tarde, uma pressão baixa que não vinha do tempo, vinha dele. Da forma como ele me olhou quando eu saí do banheiro já de biquíni, só de biquíni, a toalha ainda enrolada no cabelo. Não disse nada. Só olhou. E esse olhar ficou pendurado entre a gente a noite toda como uma promessa que nenhum dos dois pronunciou.
Jantamos perto do quarto do pousada. Ele pediu vinho. Eu comi devagar. A mesa era pequena demais e o joelho dele encostou no meu sem querer, mas ele não afastou. Nem eu.
Essa é a coisa com ele: a gente não precisa de muito para começar.
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Depois do jantar ele disse, quase de passagem, “vamos andar na praia?” e eu soube, soube antes mesmo de levantar da cadeira, que o que ele estava propondo não tinha nada a ver com caminhada.
A praia estava vazia.
Não é sempre que você encontra isso, um trecho de areia completamente deserto, sem barraca esquecida, sem casal de adolescente, sem ninguém. Só o mar à frente, enorme e indiferente, e ele ao meu lado. A lua estava alta e jogava uma luz prata sobre a espuma das ondas. Estava quente. O tipo de calor que fica na pele depois de um dia de sol, um calor de dentro.
A gente andou em silêncio por um tempo. Descalça, eu sentia a areia fria sob os pés e o vento com gosto de sal nos lábios. Ele andava levemente atrás de mim, não muito, só o suficiente para eu saber que estava me observando.
Eu parei.
Não por nada. Só parei. Olhei pro mar.
Ele chegou por trás devagar, sem pressa, e ficou parado a uns dois centímetros de mim. Perto o bastante para eu sentir o calor do corpo dele antes do toque. Longe o suficiente para que ainda não fosse toque nenhum.
“Você está pensando em alguma coisa?”
Eu demorei pra responder.
“No mar.”
Mentira. Eu estava pensando nele. Na forma como ele tinha me olhado no quarto. No joelho debaixo da mesa. No jeito que ele tinha de fazer tudo ficar suspenso antes de acontecer, como se o desejo precisasse amadurecer antes de ser colhido.
Ele não respondeu. Em vez disso, levantou a mão e tirou um fio de cabelo do meu rosto. Só isso. Um gesto pequeno, quase paternal, que não tinha nada de paternal. Os dedos passaram de leve pela minha bochecha e eu senti o tremor antes de conseguir esconder.
“Você está bem?”
“Estou.”
“Tem certeza?”
Eu me virei. Ficamos de frente, ele com os olhos escuros, a luz da lua no rosto, e eu sem saber direito onde colocar as mãos.
“Você sabe o que está fazendo,” eu disse.
“Sei.”
E então ele sorriu. Não um sorriso amplo, não. Um canto de boca. A marca registrada dele quando já decidiu o que vai fazer e está te dando a chance de correr primeiro.
Eu não corri.
Ele colocou a mão na minha cintura, por fora do vestido, leve, e me puxou. Sem urgência. Como se a praia fosse nossa pra sempre e a noite não tivesse pressa de acabar. Quando me beijou, foi exatamente assim também: sem pressa. A boca quente, o sal dos lábios, a mão que começou na cintura e subiu devagar pelas costas até a nuca, segurou meu cabelo e inclinou minha cabeça levemente para trás.
Eu deixei.
O beijo mudou ali. Eu coloquei as mãos no peito dele e senti o coração batendo mais rápido do que o dele queria admitir.

Quebramos o beijo ao mesmo tempo. Ficamos de testa encostada, respirando.
“Aqui?” eu perguntei.
Ele olhou ao redor. A praia continuava vazia. O mar, imenso. A noite, cumplíce.
“Aqui.”
Não foi uma ordem. Foi uma constatação. A gente já sabia que não ia voltar pro quarto.
Ele pegou minha mão e caminhou um pouco mais para dentro da praia, onde as rochas formavam uma espécie de abrigo natural, um canto semi-fechado de areia que ficava meio escondido da linha da costa. O lugar parecia feito para isso. Ou talvez eu estivesse inventando, a cabeça criando cenário por conta própria porque o resto do corpo já tinha decidido.
A gente se sentou na areia. Ele ficou encostado na rocha e me puxou para ficar de frente a ele, sentada no colo, as pernas enroladas pela cintura dele. Nessa posição eu era um pouco mais alta e ele levantou o rosto para me olhar com calma, sem pressa, de baixo para cima.
Esse olhar.
Eu poderia descrever o mar, a lua, a areia. Mas é esse olhar que vai ficar. O jeito que ele me via como se eu fosse a coisa mais interessante que a praia tinha a oferecer naquela noite.
Comecei a beijá-lo eu mesma dessa vez. Tomei a iniciativa porque o desejo já tinha ultrapassado a minha capacidade de esperar. Ele deixou, por um momento, que eu escolhesse a pressão, que eu me inclinasse e aprofundasse do meu jeito. E então, como sempre, quando eu estava confortável demais, ele virou o jogo.
As mãos subiram pelo vestido.
Devagar. Com aquela intenção calculada que ele tem, de fazer cada centímetro contar. Os dedos percorreram a parte interna das minhas coxas e eu me movi involuntariamente, me aproximei, porque o corpo sabe antes da cabeça que quer mais.
“Fica quieta,” ele disse baixinho no meu ouvido. Não era ordem, era quase brincadeira, mas eu senti nas costas.
Eu não fiquei quieta.
Me movi de novo, deliberadamente, pressionei o quadril contra o dele, senti o quanto ele já estava excitado, e ouvi o som pequeno que saiu da garganta dele com uma satisfação que eu não estava nem tentando esconder.
Ele riu. E depois parou de rir porque eu continuei me movendo, lenta e deliberada, e o riso não combina com o que a gente estava fazendo.
A mão dele chegou até a calcinha e ficou lá, por fora ainda, pressionando levemente, sentindo o calor antes de entrar. Eu me inclinei para frente e cobri a boca dele para não fazer barulho, porque o som que escapou de mim não era para o mar ouvir.
Quando os dedos dele finalmente escorregaram por dentro, eu estava encharcada.
“Meu Deus,” ele murmurou contra minha boca, e não era surpresa, era satisfação.
Eu me concentrei em respirar enquanto ele me explorava com uma atenção que me envergonhava e me excitava ao mesmo tempo, os dedos encontrando o ritmo certo como se conhecessem o mapa de cor, o polegar no clitóris, pressão constante e circular que me faziam perder o fio do que estava pensando. A areia fria sob os joelhos. A rocha áspera atrás dele. O calor entre a gente. A praia vazia e imensa em volta. Tudo ao mesmo tempo.
“Não para,” eu disse com a voz que não era mais minha voz normal.
Ele não parou.
Aumentou a pressão, aumentou o ritmo, e eu enterrei a testa no pescoço dele e segurei o tecido da camisa com força enquanto chegava, onda sobre onda, o orgasmo que vinha vindo desde o jantar, desde o joelho debaixo da mesa, desde aquele olhar no quarto, tudo se resolvendo em tremor e alívio e uma espécie de alegria física que só existe nesse momento.
Quando voltei, ele estava me segurando com as duas mãos na cintura, estável, firme.
“Tá bem?” ele perguntou, e a voz dele estava rouca.
“Mais do que bem,” eu respondi.
Precisei de um segundo. Depois comecei a abrir a bermuda dele.
Ele segurou meu pulso. “Você não precisa.”
“Eu sei que não preciso,” eu disse. “Eu quero.”
Ele soltou meu pulso.
A pele dele estava quente, a neca firme quando a envolvi com a mão, e o som que ele fez foi suficiente para me aquecer de novo do zero. Eu comecei devagar, apertando levemente, e ele deixou a cabeça cair para trás na rocha com os olhos fechados. A lua iluminava a garganta dele. Eu olhei e memorizei.
“Me olha,” eu disse.
Ele abriu os olhos. Me olhou.
Eu continuei no mesmo ritmo.
“Isso,” ele disse apenas.
Pouco depois ele segurou meus quadris e me posicionou. Empurrei a calcinha para o lado e desci devagar, muito devagar, sentindo cada milímetro enquanto ele me preenchia completamente. Os dois ficamos imóveis por um segundo, se ajustando à sensação, à imensidão dela.
A praia estava lá. O mar estava lá. A noite estava lá.
Mas só o que existia era a gente.
Comecei a me mover com o ritmo que o meu corpo escolheu, que era lento no começo e foi ficando mais intenso, mais urgente, as mãos dele no meu quadril me guiando sem me controlar, seguindo em vez de comandar. Eu me curvei para frente, ele entrou mais fundo, e o gemido que saiu de mim ficou perdido no barulho das ondas.
“Você é linda assim,” ele disse, olhando para mim.
Não era um elogio ao corpo. Era um elogio ao que ele via, ao que eu era naquele momento, livre e desejada e completamente presente.
Eu aceleerei o ritmo.
A macetada que seguiu foi dele, as mãos apertando com força no meu quadril enquanto impulsionava de baixo para cima, profundo, firme, o ritmo que a gente tinha construído junto desaparecendo numa urgência que nenhum dos dois tinha mais controle de administrar. Eu me segurei na rocha com uma mão e na ombro dele com a outra, e a gente se encontrou no meio desse ritmo descontrolado até que ele enterrou o rosto no meu pescoço e veio, pulsando forte dentro de mim, o corpo todo tenso e depois, devagar, afrouxando.
Ficamos assim por um tempo.
A areia fria. O vento com sal. O mar indiferente quebrando nas pedras ali perto.
Depois ele me abraçou por trás e ficamos deitados na areia olhando para cima. O céu estava cheio de estrelas. Eu não me lembrava de ter olhado para as estrelas assim, de barriga para cima, sem pensar em nada, em muito tempo.
Eu virei para ele. Ele estava sorrindo, com aquela expressão que ele tem depois que a gente se ama, relaxada e aberta, sem a camada de contenção do dia a dia.
“Obrigada,” eu disse.
“Por quê?”
“Por saber que eu precisava disso.”
Ele não respondeu com palavras. Só me puxou mais para perto e ficou com a boca no meu cabelo enquanto as ondas continuavam quebrando, sem pressa, como se tivessem a noite toda pela frente.
E tinham.
E a gente também.
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