Ilustração para conto erótico de duas mulheres em uma cafeteria aconchegante, tomando café e conversando com interesse romântico em um ambiente moderno e iluminado pela luz do dia.

O gosto dela ainda tá em mim

Eu nunca tinha pensado muito nisso. Ou melhor, eu tinha pensado, mas do jeito que a gente pensa em coisa que sabe que não vai acontecer. Um devaneio com prazo de validade, daqueles que você guarda no fundo e finge que esqueceu.

Até a Raquel chegar na minha vida com aquele jeito de existir que não pede licença.

A gente se conheceu num curso de fotografia num sábado de manhã que eu fui por impulso, depois de ver um anúncio no instagram às onze da noite com duas taças de vinho na cabeça. Ela estava sentada na fileira da frente com uma câmera velha e um casaco de veludo bordô que parecia ter história própria. Não falei nada nesse dia. Fiquei observando do jeito que a gente observa coisa que não sabe exatamente o que é, mas sente que vai importar.

Nos encontros seguintes a gente foi criando o costume de tomar café depois da aula. Primeiro com mais duas ou três pessoas do curso, depois só as duas. Ela tinha um jeito de ouvir que me desarmava. Ficava com os cotovelos na mesa, levemente inclinada, os olhos fixos em mim do jeito que pouquíssimas pessoas ficam. A maioria das pessoas ouve esperando a vez de falar. A Raquel ouvia como se o que eu dissesse fosse a única coisa no café naquele momento.

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Eu comecei a me arrumar diferente nos sábados.

Não me perguntei muito sobre o porquê. Me “convenci” que era porque eu tinha saído da preguiça, que o curso estava me animando, que estava me cuidando mais. Verdades pela metade são fáceis de acreditar quando a gente precisa.

Numa tarde de quarta-feira ela mandou mensagem fora da rotina dos sábados.

“Vem aqui em casa. Fiz um ensaio novo, quero sua opinião.”

Fui com o coração num ritmo que não sabia explicar. Ela morava num apartamento no terceiro andar de um prédio sem elevador, com plantas em toda janela e cheiro de café coado na hora. Me recebeu de camiseta larga e cabelo preso de qualquer jeito, mas ela era daquelas pessoas que ficam bonitas no descuido, talvez mais do que no esforço.

As fotos eram dela mesma. Autorretrato. Corpo inteiro em alguns, rosto em outros, uma série de quadros em preto e branco com uma luz que vinha de lado e deixava metade dela na sombra. Eu olhei por tempo demais. Ela estava de costas em uma delas, ombros nus, a curvatura do pescoço exposta, e eu senti alguma coisa se mover dentro de mim que preferi não nomear.

“São muito boas,” eu disse, e a voz saiu um pouco diferente do normal.

Ela percebeu. Eu tenho certeza que ela percebeu porque sorriu de um jeito específico, um sorriso que não chegou a ser completo, só o canto da boca, e não disse nada.

A gente ficou ouvindo música e bebendo o vinho que ela abriu. A conversa foi ficando mais lenta, mais espaçada, mais cheia de silêncio do tipo que não pesa. Em algum momento a luz foi ficando mais baixa lá fora e nenhuma de nós levantou para acender a luminária.

Ela estava sentada na ponta do sofá e eu estava no outro lado com os pés dobrados embaixo de mim. Quando percebo, tinha menos espaço entre a gente. Não sei quem se moveu. Provavelmente as duas, milímetro a milímetro, no jeito lento que o corpo sabe fazer quando a cabeça ainda está fingindo que não.

“Você já ficou com uma mulher?” ela perguntou, sem drama, sem construção. Do jeito que pergunta se você já foi a algum lugar.

Meu coração disparou.

“Não,” eu disse.

“Você pensa nisso?”

Eu poderia ter desviado. Mas alguma coisa naquele apartamento, naquela luz, naquele jeito dela de olhar direto sem me pressionar, não me deixou.

“Às vezes.”

Ela não avançou. Ficou olhando pra mim com aquele mesmo jeito de quando ouvia, como se minha resposta fosse a coisa mais importante do cômodo.

“Você não precisa fazer nada que não queira,” ela disse. “Eu só precisava que você soubesse.”

Eu soube naquele momento que estava com medo. E que o medo não era de não querer. Era de querer demais e não saber o que fazer com isso.

Fui eu que me aproximei.

Ela esperou. Deixou eu chegar no meu tempo, sem prender o braço nem antecipar nada. Quando nossos rostos ficaram perto demais pra fingir que era acidente, eu parei. Ela estava de olhos abertos, calma, e disse quase sem voz:

“Pode.”

O primeiro beijo foi diferente de qualquer coisa que eu esperava. Não sei o que eu esperava, na verdade. Talvez algo mais parecido com o que eu conhecia. Mas o beijo dela foi suave de um jeito que me desorientou completamente, lento, sem pressa, o lábio de baixo dela encaixando no meu de cima com uma delicadeza que me fez perder o fio de qualquer pensamento que eu ainda tentava manter.

Ela passou a mão no meu rosto. Só isso. A mão espalmada na minha bochecha, polegar no queixo, me segurando com aquela leveza que é quase mais íntima do que qualquer aperto.

Eu tremi um pouco.

Ela notou e se afastou só o suficiente.

“Tá bem?”

“Tô,” eu disse. E era verdade. Era nervosismo do bom, do tipo que você não quer que passe.

A gente voltou ao beijo e dessa vez foi diferente. Mais fundo. As mãos dela descendo pelo meu pescoço, pela lateral dos meus ombros, com uma segurança que me deixou confusa porque eu nunca tinha sentido isso: ser tocada por alguém que claramente sabia o que estava fazendo, mas que fazia do meu jeito, no meu ritmo, sem tirar meu espaço.

Ela puxou minha mão e me levou pro quarto sem pressa, acendendo o abajur pequeno que deixava o ambiente num laranja baixo.

“Pode dizer o que quiser,” ela falou antes de qualquer coisa. “Se quiser parar, a gente para. Se quiser ir devagar, a gente vai devagar.”

Eu não queria parar.

Ela me deitou com um cuidado que me pegou de surpresa, e ficou olhando pra mim de cima por um segundo com aquele sorriso incompleto do início da noite. Depois desceu o rosto pro meu pescoço e ficou lá. Só o calor da boca dela na minha pele, sem pressa, explorando o espaço atrás da orelha, a clavícula, a junção do ombro. Eu fechei os olhos e entendi que estava prestes a aprender que o meu corpo tinha pontos que eu não sabia que existiam.

As mãos dela subiram por baixo da minha blusa com o mesmo cuidado. Cada centímetro era uma pergunta que não precisava ser dita em voz alta, e meu corpo ia respondendo com arrepio, com respiração que perdia o compasso, com as mãos que apertavam o lençol sem eu perceber que estava fazendo isso.

Quando a blusa saiu e o sutiã em seguida, ela ficou parada por um segundo só me olhando.

“Meu Deus,” ela disse baixo, quase pra ela mesma.

E foi a coisa mais bonita que alguém já disse sobre o meu corpo.

Ela desceu pela minha barriga com a boca devagar, a língua passando pelo umbigo, os dentes roçando levemente no osso do quadril. Eu já estava completamente perdida, a cabeça sem conseguir segurar pensamento nenhum, o corpo com uma vontade só.

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Quando ela tirou minha calça e ficou de joelhos na cama entre as minhas pernas, eu senti aquela mistura de nervosismo e desejo chegando num pico que eu não sabia como lidar.

“Eu nunca…” eu comecei.

“Eu sei,” ela disse, e a voz estava mais rouca. “Pode confiar em mim.”

E eu confiei.

A boca dela encontrou minha boceta com uma precisão. Ela sabia exatamente onde estava, o que estava fazendo, e fazia com uma intensidade controlada que me enloquecia, porque era suficiente pra me deixar no limite mas não suficiente pra me largar lá. Ela brincava com meu grelo com a língua, ora em círculos lentos, ora com pressão pontual que me arrancava sons que eu não sabia que fazia.

As mãos dela seguravam meus quadris com firmeza, não me deixando fechar as pernas, e eu dei graças porque os instintos me traíam toda hora, o corpo querendo se encolher de prazer mesmo sem querer que parasse.

Quando ela introduziu dois dedos com cuidado, curvados pro lugar certo enquanto a língua continuava no clitóris, eu soltei um gemido que não era de mim, ou talvez fosse a versão mais honesta de mim que já tinha aparecido.

Ela me levou devagar até o limite. Me deixou chegar, segurou um pouco, me deixou subir de novo. Quando veio o orgasmo foi diferente de tudo que eu conhecia, mais fundo, mais espalhado pelo corpo inteiro, as pernas tremendo sem controle e o nome dela saindo da minha boca sem eu ter decidido dizer.

Fiquei um tempão deitada sem saber onde estavam as bordinhas de mim.

Ela subiu e ficou do meu lado, a cabeça apoiada na mão, me olhando com aquele jeito calmo que era dela.

“Tá bem?” ela perguntou de novo, e dessa vez era diferente da primeira vez.

“Estou…” eu procurei a palavra certa. “Estou inteira.”

Ela sorriu de verdade dessa vez, o sorriso completo.

Depois eu a toquei. Com mais insegurança do que ela, com mais pausas, com perguntas em voz alta que ela respondia com paciência e prazer. Aprendi onde ela queria mais, onde ela queria mais suave, o jeito que o corpo dela se movia quando eu acertava. Aprendi que dar prazer assim, prestando atenção em cada detalhe do outro corpo, tem uma satisfação própria que não é menor do que receber.

Quando ela veio com os dedos entrelaçados no meu cabelo e a respiração completamente entregue, senti um orgulho gostoso e ridículo que me fez rir baixinho depois.

“O que foi?” ela pergunteu, a voz ainda rouca.

“Nada,” eu disse. “É que eu tô muito feliz.”

Ela me puxou pra ela e ficamos enroladas no lençol dela com as plantas lá fora na janela e o barulho baixo da rua chegando de longe.

Eu pensei que ia ter alguma crise existencial depois. Que ia precisar catalogar e entender e colocar em caixinha. Mas o que eu senti foi uma estranha sensação de chegar em lugar que não sabia que estava procurando.

Não sei o que eu sou. Talvez eu não precise saber ainda.

Sei que a Raquel me olha daquele jeito e eu perco o fio dos pensamentos. Sei que primeira vez com ela não foi uma descoberta sobre mulheres no geral. Foi uma descoberta sobre mim. Sobre o quanto de mim eu estava segurando enquanto fingia que não precisava de nada.

Me deixar ver de verdade foi a coisa mais assustadora e mais bonita que já fiz.

E eu faria de novo.

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