Entre meu marido e o melhor amigo dele

Tinha sido ideia dele.

Claro que tinha.

Eu sabia desde que Marcos sentou na nossa sala pela primeira vez depois de três meses viajando. Sabia pelo jeito que Rafael me olhava olhar para o amigo. Sutil, calculado. Esperando alguma coisa que eu ainda não entendia direito, mas que pousava no meu estômago toda vez que os três estávamos no mesmo cômodo.

Isso foi em outubro. Agora era quase meia-noite de uma sexta de novembro, e os três estávamos na nossa varanda com a segunda garrafa de vinho quase no fim, e o ar entre nós pesava de uma forma que eu conhecia bem. Era o tipo de peso que precede alguma coisa. Um temporal. Uma confissão. Uma decisão que muda o chão.

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Marcos estava inclinado para frente, o copo esquecido entre os dedos, me olhando com aquele jeito que eu fingia não notar há meses. Ele era bonito de um jeito diferente de Rafael. Enquanto meu marido era todo ângulos e intensidade, Marcos tinha mais suavidade nos olhos, aquela expressão tranquila que só mudava quando ele achava que ninguém estava prestando atenção.

Eu estava sempre prestando atenção.

Rafael colocou a mão no meu joelho e apertou devagar. Eu me virei para ele e vi um sorriso que não era de vinho. Era de outra coisa.

“Vou buscar mais uma garrafa,” ele disse. E então, num volume que Marcos claramente ouviu: “Vocês dois se virem.”

Não foi uma saída casual. Foi proposital. O barulho dos passos na sala durou tempo demais para uma cozinha pequena. Rafael estava me deixando sozinha com Marcos de propósito, e os dois sabíamos disso.

O silêncio que ficou não foi constrangedor. Foi carregado.

“Ele me contou,” Marcos disse por fim, a voz baixa, os olhos fixos nos meus.

Meu estômago deu uma volta. “Contou o quê?”

“O que ele pensa.” Uma pausa. “O que ele quer.”

Engoli em seco. Rafael tinha me contado sobre a fantasia meses atrás, numa noite em que a gente tinha bebido e a conversa tinha ido longe demais para recuar. Eu tinha escutado, sentido aquele calor estranho no peito, metade vergonha, metade uma coisa que eu não quis nomear. Tinha achado que ele estivesse falando no abstrato. Que era daquelas coisas que a gente diz no escuro e não menciona de manhã.

Aparentemente não era.

“E você?” eu perguntei, minha voz mais firme do que me sentia por dentro. “O que você quer?”

Marcos colocou o copo na mesa devagar. “Acho que você sabe o que eu quero há um tempo.”

Eu sabia. Deus, eu sabia.

Rafael voltou com a garrafa, sentou do meu outro lado, e o contato do braço dele com o meu foi uma âncora no meio de tudo. Ele me olhou com aquela pergunta nos olhos que a gente não precisa de palavras para fazer depois de tantos anos juntos.

Eu não disse não.

A sala ficou menor de algum jeito depois que a decisão foi tomada. Ou eu fiquei maior, não sei dizer ao certo. A luz era baixa, só a luminária do canto acesa, e o vinho esqueceu de ter gosto. Marcos estava de pé, a camisa já fora do short, e eu ainda estava sentada no sofá com Rafael do meu lado quando Marcos se inclinou e colocou a boca no meu pescoço.

Eu fechei os olhos.

Rafael não se moveu imediatamente. Ele estava me observando, eu sentia o peso do olhar dele mesmo sem ver. Quando finalmente colocou a mão na minha cintura foi para me puxar um pouco, me ajudar a relaxar no próprio nervosismo, como se ele soubesse que meu corpo estava metade aqui e metade tentando fugir da própria ousadia.

“Você está bem?” ele sussurrou no meu ouvido.

“Sim.” Não era mentira. Era a resposta mais verdadeira e mais assustadora que eu já tinha dado.

Marcos me puxou devagar para ficar de pé, e quando fui, fui inteira. Deixei que ele passasse os dedos pelo meu rosto, que levantasse meu queixo, que me olhasse daquele jeito que durava tempo demais para ser inocente. E então ele me beijou, e eu beijei de volta, e não tinha como fingir que aquilo era acidente ou álcool ou qualquer outra coisa conveniente.

Era escolha. E eu tinha feito ela de olhos abertos.

Rafael ficou de pé atrás de mim. Senti o calor do corpo dele antes mesmo do toque. Suas mãos foram para os meus quadris, me puxaram levemente para trás, e então estávamos os três num alinhamento que nunca tinha acontecido na nossa sala mas que tinha uma lógica própria, quase inevitável.

“Você é linda,” Marcos disse contra minha boca, e a palavra saiu como fato, não como elogio aprendido.

Eu riria disso depois. Agora só conseguia sentir.

No quarto, a luz ficou apagada por iniciativa de ninguém. Nós três simplesmente sabíamos que era assim que ia ser.

Me deitei e observei os dois por um segundo, aquele segundo que a gente nunca esquece. Rafael com aquele brilho nos olhos que eu raramente via, intenso e quente e cheio de uma coisa que não era exatamente ciúme mas se parecia um pouco com ele. E Marcos mais contido, mais quieto, mas os dedos que desfaziam o botão da calça traindo que a calma era só superfície.

Marcos começou por mim com uma paciência que me deixou fora de mim. Boca no pescoço, nos ombros, descendo devagar enquanto eu tentava me lembrar de respirar. Rafael ficou do meu lado, os dedos afundando no meu cabelo, me olhando de um jeito que eu nunca vou conseguir descrever direito. Calor. Possessividade. Curiosidade. Prazer de me ver com prazer. Tudo junto num rosto que eu achava que conhecia de cor.

“Gosta?” ele perguntou, a voz rouca de uma forma que não era costume.

“Você sabe que sim.”

Ele sorriu e me beijou, e enquanto eu beijava meu marido, senti a boca de outro homem em lugares que normalmente eram só dele. O conflito durou segundos. O prazer durou muito mais.

A boca de Marcos encontrou minha boceta com uma dedicação que me fez apertar o braço de Rafael como se o quarto fosse virar. Ele trabalhou ali com os lábios e a língua enquanto Rafael deslizava os dedos pelo meu corpo, e eu fui esquecendo de ter vergonha, fui soltando a contenção que eu nem sabia que estava segurando, fui me abrindo como quem decide de verdade que chegou a hora.

Quando Marcos se posicionou em mim eu fechei os olhos e soltei o ar que estava prendendo. Ele colocou a camisinha e entrou devagar, com aquela firmeza cuidadosa de quem quer que seja bom, e meu corpo aprendeu o ritmo novo enquanto minha cabeça tentava dar conta de que aquilo estava acontecendo de verdade.

Rafael ficou na minha lateral por um tempo, os dedos no meu grelo, observando. E perceber que meu marido estava ponto de bala de me ver assim foi uma das coisas mais inesperadas e mais excitantes da minha vida inteira.

O voyeurismo tem uma crueldade específica. Rafael me olhava com olhos de homem que queria devorar e ao mesmo tempo estava sendo devorado por dentro. Ele me queria. Queria me ver desejada. Os dois desejos coexistindo nele de um jeito que eu só entendia metade, mas que a metade que eu entendia me acendia tão forte quanto o que estava acontecendo no meu corpo.

“Você é incrível,” Marcos disse perto do meu rosto, e pela primeira vez desde que aquilo tinha começado eu me senti completamente em paz com estar ali.

Quando Rafael se posicionou atrás de mim, o ritmo já estava estabelecido. Seus dedos foram gentis primeiro, preparando, e eu soube pelo calor da palma da mão dele na minha lombar que estava no lugar certo. Marcos ficou parado para que o ajuste fosse possível, e nesse silêncio de espera eu tive um segundo para pensar: essa é a fronteira. Do outro lado dela eu serei uma versão diferente de mim mesma.

Atravessei sem hesitar.

A penetração dupla foi desconfortável por exatamente uns trinta segundos, aquele desconforto de corpo que ainda não entendeu o que está acontecendo. E depois foi outra coisa completamente.

mulher com um homem de cada lado

Foi ficar completamente cheia de querer.

O ritmo que os dois encontraram não foi imediato. Teve ajuste, teve comunicação de corpo que dispensou palavras. Rafael avançava e Marcos recuava, depois invertiam, e nesse vai e vem eu fui me perdendo de um jeito que não sabia que existia. Não era só físico, embora o físico estivesse em volume máximo. Era a cabeça. Era saber que meu marido estava do outro lado de mim, que era ele me segurando pela cintura com aquela firmeza que me conhece desde sempre, que no meio de tudo isso eu ainda estava no nosso quarto, no nosso casamento, só que expandido, aberto, diferente de tudo que a gente tinha sido até aquela noite.

Marcos gemeu baixo e eu senti isso em todo o meu corpo, de dentro para fora.

Rafael disse meu nome daquele lugar fundo que raramente aparece, e minha garganta fez um som que eu não planejei.

A mão de Marcos encontrou meu grelo no momento exato em que Rafael se aprofundou, e a combinação foi o tipo de coisa que a gente não consegue preparar o corpo para receber. O orgasmo começou de um jeito que eu conhecia e continuou de um jeito completamente novo. Veio do fundo, subiu lento e cruel, e quando quebrou não foi com aquele espasmo rápido de sempre. Foi uma onda longa, com duração, com aquela qualidade que faz você esquecer o nome de qualquer coisa enquanto está acontecendo.

Fiquei literalmente sem saber onde estava por uns segundos.

Os dois foram logo depois, quase juntos, e o quarto ficou com o silêncio específico de quem acabou de chegar num lugar que não estava no mapa.

Depois ficou quieto do jeito que fica depois das coisas que mudam alguma coisa.

Marcos saiu logo. Não de um jeito constrangido, sem drama nenhum. Só aquela consciência partilhada de que agora era tempo de Rafael e eu. Ele nos abraçou no corredor, os três um segundo juntos, e então a porta fechou com um clique baixo.

Rafael ficou parado na sala por um momento antes de me olhar.

“E aí?”

Tinham umas dez respostas possíveis e todas eram verdade ao mesmo tempo. Que tinha sido intenso. Que eu estava processando. Que meu corpo ainda estava em modo de reverberação e que minha cabeça corria para alcançar.

Escolhi a mais honesta.

“Foi de um jeito que eu não sabia que eu queria.”

Ele acenou levemente, aquele gesto que significa que está guardando a frase. Me puxou para o quarto e ficamos deitados de frente um para o outro no escuro, sem pressa de coisa nenhuma.

“Você gostou de me ver,” eu disse. Não era pergunta.

“Muito mais do que eu achei que ia gostar.”

“Isso te assusta?”

Ele ficou em silêncio o tempo exato de quem está sendo honesto de verdade. “Um pouco. Mas não do jeito que eu esperava.”

Entendi o que ele quis dizer. O medo que eu tinha antes era do ciúme quebrar alguma coisa entre a gente. Mas o que tinha ficado no quarto não tinha sido destruição. Tinha sido outra versão de nós.

Coloquei a cabeça no peito dele e ouvi o coração ainda mais acelerado do que o normal.

“A gente vai ter que conversar sobre isso,” eu disse.

“Sim.” Ele passou a mão nas minhas costas, devagar, no ritmo de sempre. “Mas não agora.”

Não agora. Agora era só isso: o escuro familiar do nosso quarto, o silêncio de depois, e o confortável peso de um casamento que acabava de descobrir que cabia mais do que a gente pensava.

Eu fechei os olhos.

E dormi melhor do que tinha dormido em meses.

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