A viagem que terminou numa cama de motel
Eu não conhecia o rosto dele quando aceitei a carona. Só o nome no aplicativo, a foto levemente embaçada no perfil, e a nota: 4,9 estrelas.
Pensei que fosse suficiente para uma viagem de quatro horas.
Não era.
O Civic preto chegou pontual na esquina onde eu esperava, a mochila nos pés, o sol de outubro pesando no ombro esquerdo. A janela desceu antes que eu me mexesse.
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“Mariana?”
Não era uma voz comum. Era o tipo de voz que faz você pausar um segundo antes de responder, só para ter certeza de que ouviu certo.
“Sou eu.”
Ele não saiu do carro para ajudar com a mochila. Simplesmente desbloqueou o porta-malas com um clique e esperou. Eu gostei disso. Nenhuma performance de cavalheiro, nenhum esforço para agradar. Apenas a certeza tranquila de que eu saberia o que fazer.
Entrei no carro. Ele olhou para frente.
“Vinicius,” disse ele, sem tirar os olhos da rua. “Pode me chamar de Vini se preferir.”
“Mariana.” Coloquei o cinto. “Você sabe que eu já sei disso do perfil.”
“Eu sei.” O canto da boca subiu um pouco. “Queria ver se você ia mencionar.”
Fui apresentada ao jogo nos primeiros trinta segundos de viagem.
A playlist começou quando a cidade ainda enchia o para-brisa. Algo entre jazz e bossa nova, instrumental, discreto. O tipo de escolha que diz mais sobre uma pessoa do que qualquer biografia. Observei as mãos dele no volante. Firmes. Calmas. As de um homem acostumado a esperar pelo momento certo.
“Primeira vez que você usa o BlaBlaCar?” ele perguntou uns vinte minutos depois.
“Terceira. Você?”
“Décima segunda.”
Olhei para ele. “Décima segunda?”
“Gosto de companhia.” Uma pausa. “Depende da companhia.”
Eu devia ter olhado para a janela. Em vez disso, fiquei estudando o perfil dele. O maxilar. A forma como a camisa azul-marinho assentava no ombro enquanto guiava. Tinha a sensação de estar lendo algo que não era para mim.
“E essa companhia?” perguntei. “Está boa?”
Ele demorou alguns segundos para responder. Tempo suficiente para eu sentir que a pergunta havia chegado em algum lugar.
“Ainda é cedo,” disse ele.
Passou uma hora. Depois outra.
A conversa foi se desenrolando. Ele trabalhava com arquitetura, viajava para São Paulo a cada quinze dias por conta de um projeto grande, preferia dirigir a pegar ônibus porque precisava de tempo para pensar. Eu contei que trabalhava com design gráfico, que a reunião na segunda era importante demais para perder, que não gostava de avião desde uma turbulência em 2021.
“Medo te paralisa ou te acorda?” ele perguntou de repente.
“Me acorda,” respondi devagar. “Na maioria das vezes.”
Ele assentiu como se eu tivesse confirmado algo que já suspeitava.
O sol foi baixando. A luz dentro do carro mudou de tom, do branco para o âmbar, e o espaço entre os dois bancos dianteiros pareceu, de alguma forma, menor do que antes. Eu tinha consciência do braço dele quando mudava de marcha. Da respiração quando ria, grave e contida. Do jeito como me olhava nos retrovisores.
Não demoradamente. Só o suficiente.
Paramos num posto porque eu precisava de café e ele precisava abastecer. Fui ao banheiro, lavei o rosto, me olhei no espelho úmido e percebi que estava com calor por razões que não tinham nada a ver com outubro.
Quando voltei, ele estava apoiado na lateral do carro com um copo nas mãos. Me entregou outro sem perguntar.
“Você adivinhou o que eu ia querer.”
“Notei que você olhou para a máquina duas vezes quando entrou.”
O café estava do jeito certo. Amargo, quente, sem açúcar.
“Você presta muita atenção nas pessoas,” disse eu.
“Nas que valem a pena.”
Houve um silêncio. O tipo que não é vazio. Cheio de coisa não dita, de ar comprimido entre duas pessoas que já ultrapassaram a linha do protocolo sem ter percebido exatamente quando.
“Quantos quilômetros faltam?” perguntei.
“Uns cento e cinquenta.”
Olhei para o carro. Para ele.
“Parece pouco,” disse eu.
A voz saiu mais baixa do que planejei. Ele notou. Vi pela forma como os olhos pousaram nos meus por um segundo antes de desviar.
“Parece,” ele concordou.
Entramos no carro.
Mas alguma coisa havia mudado. A conversa ficou mais espaçada, mais carregada. As pausas passaram a ter peso. Quando ele mudava de marcha, o dorso da mão passava perto do meu joelho, nunca tocava de propósito, mas eu sentia o calor daquela proximidade como se fosse contato real.
“Você estava esperando que essa viagem fosse acontecer assim?” perguntei.
Ele ficou quieto por um momento.
“Não estava esperando. Mas reconheci quando começou.”
“Quando começou?”
“Quando você disse que o medo te acorda.”
Respirei fundo.
O GPS anunciou que a saída estava a quatro quilômetros. São Paulo já manchava o horizonte de luz laranja e cinza. Pensei em tudo que deveria dizer. Deveria agradecer a viagem, pegar a mochila, desaparecer no fluxo da cidade como se aquelas horas fossem só uma viagem.
“Tem um motel aqui na saída,” disse ele. Sem drama. Sem nervosismo. Com a mesma voz com que havia me perguntado se era minha primeira vez no aplicativo. “Estou te dizendo porque você vai decidir se a gente passa reto ou não.”
O GPS voltou a falar. Ele não.
Eu olhei para ele. Para as mãos no volante. Para o queixo levemente tenso, único sinal de que aquela calma toda custava alguma coisa.
“Reduz a velocidade,” disse eu.
A suíte tinha janela para uma avenida barulhenta e uma cama enorme que nenhum dos dois olhou de imediato. Ficamos parados no meio do quarto por alguns segundos, a mochila jogada perto da porta, a luz apagada exceto pelo brilho que entrava da rua.
Ele não avançou.
Eu fui.
O beijo começou devagar, do jeito que eu precisava que começasse, do jeito que ele parecia saber que precisava começar. Uma pressão lenta. Uma mão na minha nuca, sem apertar, só segurando. Senti a temperatura do corpo dele atravessar a camisa e percebi que ele estava com vontade disso há muito tempo, sem ter palavra para nomear ainda.
A camisa dele foi primeiro. Depois a minha blusa. Ele me olhava enquanto tirava cada peça, não com pressa, não com ansiedade, com aquela atenção que eu havia notado no posto, como se estivesse registrando cada detalhe para não perder nada.
“Fica exatamente assim,” disse ele, em voz baixa.
A cama recebeu nosso peso juntos.

Ele desceu pelo meu pescoço, pela clavícula, pela curva do seio, com uma boca quente e uma paciência que me deixou sem fôlego antes que qualquer coisa mais direta acontecesse. Enrolei os dedos no cabelo dele e fechei os olhos, deixei cada centímetro de boca no meu corpo ser o mundo inteiro por um momento.
Quando a boca dele chegou entre as minhas pernas, eu já estava tão aberta para aquilo que o primeiro contato me arrancou um som que não tentei esconder. Ele trabalhou devagar, com ritmo, prestando atenção nas minhas reações do mesmo jeito que havia prestado atenção em tudo desde o começo da viagem. Me perdi ali. Quando vim, foi com as mãos no lençol e o nome dele na garganta.
Ele subiu pelo meu corpo, se apoiou dos dois lados da minha cabeça, me olhou.
“Ainda está acordada?” perguntou.
“Mais do que nunca.”
Quando ele entrou em mim, fez devagar, deu tempo para que eu o sentisse inteiro antes de começar a mover. O ritmo foi construindo com calma, ficando mais fundo, mais preciso, mais do que eu sabia que queria até que estava acontecendo. Eu o segurei pelos ombros e deixei o corpo responder por mim, deixei a adrenalina da viagem, a tensão das horas, os olhares nos retrovisores, deixei tudo aquilo virar prazer de uma vez só.
Em algum momento virei de bruços. Ele segurou meu quadril com as duas mãos e eu senti a mudança de ângulo como uma pergunta a que meu corpo respondeu antes que eu pensasse.
“Pode tudo?” ele perguntou, com a voz mais rouca, a boca perto do meu pescoço.
“Pode tudo,” eu disse.
E assim foi.
Cada posição foi uma camada nova. Cada mudança de ritmo, uma redescoberta. Quando ele tomou as partes de mim que eu não ofereço facilmente, fez com cuidado e intenção, e eu entendi naquele momento o que ele quis dizer com reconhecer quando algo começa. Há coisas que você sente a primeira vez e já sabe que vai sentir falta.
Quando vim de novo foi como uma onda longa, daquelas que puxam pelo fundo antes de jogar na praia. Ouvi o som que ele fez quando chegou junto, grave e real, e não me arrependi de nenhuma escolha que havia feito naquele dia.
Ficamos deitados por um tempo sem falar. A cidade continuava lá fora, barulhenta, indiferente.
“E então,” ele disse depois. “Boa companhia?”
Ainda ria quando respondi.
“Décima segunda viagem, né?” Virei para ele. “Como você vai se superar na décima terceira?”
Ele sorriu. O mesmo sorriso de quando chegou na esquina naquela tarde que parecia ter sido em outro tempo.
“Ainda é cedo,” disse ele.
Acreditei.
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