Ilustração para conto erótico mostrando uma mulher sentada na beira da cama segurando uma caixa. A arte possui traços modernos, atmosfera intimista e rosto minimalista apenas com contornos.

A nossa primeira noite com toys

Eu fiz o pedido numa terça-feira de manhã, enquanto ele tomava banho e eu fingia que lia e-mail no celular. Cliquei em “confirmar compra” com o coração batendo como se eu tivesse fazendo algo proibido. E talvez fosse. Não o ato em si. Mas a admissão silenciosa de que eu queria mais do que a gente vinha tendo.

Doze anos de casada ensinam muita coisa. Ensinam o jeito que ele ronca quando está num sono profundo, e que esse ronco, de algum jeito, me faz bem. Ensinam que ele toma o café sem açúcar mas coloca mel no iogurte, e que isso me irritava nos primeiros anos e agora eu acho a contradição dele bonita. Ensinam também que o desejo sobrevive à rotina, mas que às vezes ele precisa de um empurrão. De um gesto deliberado. De alguém que diga: eu ainda quero. Eu ainda quero mais.

O pacote chegou numa quinta-feira, discreto como prometia o site. Peguei no interfone antes que ele chegasse do trabalho, subi com a caixinha debaixo do braço, e fiquei olhando pra ela em cima da cama por uns vinte minutos antes de abrir.

Dentro, embrulhados estavam os dois. O personal primeiro, pequeno, lilás, com formato arredondado e uma vibração que prometia ser poderosa pra um corpo tão compacto. E o rabbit logo embaixo, em roxo mais escuro, com aquela anatomia curiosa de duas pontas, uma pra dentro e uma pra fora, como se alguém tivesse desenhado o prazer feminino com muita atenção e zero pressa.

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Eu estava sentada na borda da cama ainda segurando o personal quando ouvi a chave na porta.

Pensei em esconder. Pensei em jogar tudo na gaveta, fingir que não tinha acontecido nada. Mas então me lembrei por que eu tinha feito o pedido numa terça de manhã com o coração acelerado. Não era pra esconder. Era exatamente o contrário.

Ele entrou no quarto e me encontrou assim: sentada na cama, os dois toys na mão, olhando pra ele com uma expressão que eu não sei descrever mas que devia dizer tudo.

Ele olhou pra mim. Olhou pra minha mão. Olhou de novo pra mim.

“O que é isso?”

“O que parece.”

Ele soltou a mochila no chão e ficou parado no meio do quarto. Não era desconforto no rosto dele. Era outra coisa. Algo entre surpresa e uma curiosidade que ele ainda não sabia o que fazer.

“Você comprou.”

“Comprei.”

“Pra gente.”

“Pra gente.”

Ele ficou em silêncio por um segundo que pareceu mais longo do que era. Depois veio sentar do meu lado. Pegou o personal da minha mão com uma delicadeza que me desarmou completamente, virou nos dedos, examinou como quem está descobrindo um objeto de outro planeta.

“E como funciona?”

Eu ri. Ele riu junto. E nessa gargalhada a gente deixou entrar um pouco de ar fresco numa casa que, sem que a gente tivesse percebido direito, tinha ficado um pouco abafada.

Aquela noite começou devagar.

A gente jantou, assistiu meia hora de série sem prestar atenção, e quando ele passou a mão no meu pescoço do jeito que só ele sabe fazer, discreto e com uma pressão leve que faz a minha nuca formiguar, eu já sabia que a gente ia acabar no quarto antes do fim do episódio.

Na cama, ele foi diferente. Não com ansiedade. Com atenção. A diferença é sutil mas eu conheço o corpo dele o suficiente pra sentir. Ele estava prestando atenção em mim de um jeito que a correria do cotidiano às vezes rouba da gente.

Quando eu alcancei a gaveta e tirei o personal, ele não afastou. Ficou observando, a cabeça inclinada no travesseiro, me olhando nos olhos enquanto eu ligava o toy pela primeira vez.

mulher tirando vibrador personal da gaveta

A vibração era mais intensa do que eu esperava pra um aparelho daquele tamanho. Quando eu encostei no meu grelo, soltei um som que não era exatamente discreto.

Ele riu de novo, mas era um riso quente. O tipo de riso que aquece em vez de afastar.

“Gostou?”

“Cala a boca.”

Ele não calou. Ficou falando, com aquela voz baixa que ele usa quando quer me deixar louca, descrevendo o que estava vendo, o que queria fazer, o que ia fazer. E com o toy fazendo o que estava fazendo, as palavras dele viraram parte do prazer, como se o som da voz dele fosse uma terceira mão.

Quando ele entrou em mim, eu ainda segurava o personal encostado em mim. A combinação das duas sensações ao mesmo tempo me fez arquejar de um jeito que eu não me ouvia fazer há tempo. Ele parou.

“Tá bem?”

“Não para.”

Ele não parou.

O que aconteceu nos vinte minutos seguintes foi o tipo de coisa que a gente não costuma ter palavras pra descrever depois. Não porque foi indescritível num sentido poético. Mas porque a cabeça desliga quando o corpo está assim, completamente tomado, e o que sobra não é memória linear.

É fragmento. É o calor. É o peso dele. É a vibração constante enquanto ele me macetava num ritmo que foi aumentando gradualmente, como se ele estivesse ouvindo o meu corpo e ajustando cada detalhe. É o orgasmo que chegou em onda, não na explosão seca que a correria produz, mas longo, com começo e meio e um fim que foi difícil de identificar porque quando acabou eu ainda estava tremendo.

Ele ficou me olhando depois. Com aquele olhar.

“Você foi longe.”

Eu fui.

Ficamos quietos por um tempo. A janela estava entreaberta e o ar da noite entrava com cheiro de terra molhada porque tinha chovido à tarde. Eu estava com a cabeça no peito dele e ele passava a mão no meu cabelo.

“E o outro?” ele perguntou.

Eu levantei a cabeça e olhei pra ele.

“Hoje ainda?”

“Só se você quiser.”

Eu quis.

O rabbit ficou na gaveta por mais três dias antes de a gente chegar nele. Não porque a gente esqueceu. Mas porque construir antecipação foi, naquele ponto, parte do prazer. A gente se olhava no café da manhã e eu sabia que ele estava pensando no mesmo que eu. Ele mandou uma mensagem na quinta à tarde: “hoje à noite?” e eu respondi com um emoji de coelho que ele não esperava e que me fez rir sozinha no banheiro do trabalho.

Na sexta, quando a gente foi dormir, tinha uma qualidade diferente no ar do quarto. Era expectativa. Era tesão de adulto que sabe o que está prestes a acontecer e que gosta justamente porque sabe.

Eu peguei o rabbit da gaveta e coloquei na mão dele.

“Você coloca.”

Ele me olhou com uma seriedade que durou dois segundos e virou desejo puro.

Ele foi devagar. Esse é um detalhe que importa pra mim e que, depois de doze anos, ele sabe: eu preciso de tempo. Não porque sou difícil. Porque sou inteira. E quando estou inteira no que estou fazendo, o que vem é diferente.

Ele foi com a boca primeiro, descendo pelo meu pescoço, pela curva do seio, pela barriga, até chegar na minha boceta com aquela calma que ele desenvolve quando não tem pressa nenhuma. A língua dele no meu clitóris me deixou no limite sem me jogar além, o que é uma arte que poucos homens dominam e que o meu domina sem nem perceber.

Quando ele pegou o rabbit e começou a posicionar com cuidado, eu já estava tão molhada que a entrada foi natural. A parte que penetra deslizou com facilidade, e a outra, aquela curvinha pensada com carinho pelo quem quer que tenha desenhado esse toy abençoado, encostou direto no meu grelo como se tivesse sido feita pra mim especificamente.

Ele ligou no primeiro nível.

Eu fechei os olhos.

Teve um momento em que o meu cérebro tentou catalogar o que estava sentindo e não conseguiu. Era pressão interna e vibração externa ao mesmo tempo, ocupando territórios diferentes e complementares, como se o prazer tivesse descoberto de repente que tinha mais de um endereço no meu corpo.

Ele ficou do meu lado, a mão livre percorrendo o meu quadril, o meu ventre, e foi aumentando o nível devagar, pausando entre um e outro, me olhando com aquela atenção concentrada de quem não quer perder nada.

No terceiro nível, eu parei de conseguir ficar quieta.

No quarto, eu parei de conseguir ficar calada.

Falei coisas que não vou repetir aqui porque são minhas, só minhas e dele, do quarto fechado e da janela entreaberta e do cheiro de noite que entrava. Falei o nome dele de um jeito que faz muito tempo que não falava. Com urgência. Com presença real.

O vibrador entre os dois corpos criou uma pressão que fez a gente soltar um som junto, no mesmo instante, e isso me fez rir no meio do gemido, um riso que não era descaso mas o oposto, era alegria de verdade, o tipo de leveza que só aparece quando você está completamente presente em alguma coisa.

O orgasmo que veio não foi como o anterior. Foi mais fundo. Começou num lugar que eu raramente acesso e se abriu pra fora como se fosse expandir além do meu próprio corpo. Eu ouvi ele vir junto, o ritmo dele acelerando e travando, a respiração pesada no meu ouvido, e isso, o fato de a gente estar chegando lá juntos, foi a parte que me fez apertar os olhos com força pra não chorar.

Não de tristeza. De alívio. De reconhecimento.

Depois, a gente ficou num silêncio do tipo que não precisa de nada. Ele jogou um braço sobre os meus ombros e eu encostei a testa no pescoço dele.

“Onde você comprou?” ele perguntou, eventualmente.

“Online.”

“Tem outros?”

Eu sorri no escuro.

“Tem vários outros.”

Ele ficou quieto. Depois: “posso ver o site?”

E eu, que doze anos atrás nunca teria imaginado que ia passar meia-noite de sexta debaixo de uma coberta mostrando um catálogo de sex toys pro meu marido, peguei o celular e passei pra ele com uma leveza no peito que não sentia faz muito tempo.

O desejo não morreu. Ele só precisava de senha nova. E a senha, descobri naquela quinta-feira com uma caixinha branca e dois toys embrulhados em papel rosa, era essa: aparecer de verdade. Querer de verdade. E ter coragem de dizer isso sem dizer nada, só colocando nas mãos de quem você ama a prova de que você ainda está lá, ainda quer, ainda escolhe essa cama, esse homem, essa vida, todos os dias.

Com toy ou sem toy.

Mas, honestamente? Com toy é muito melhor.

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