Minha primeira noite com uma gp
Eu fiquei quarenta minutos parado no estacionamento.
Motor desligado, celular na mão, o número salvo como “Serviços Gerais” por que eu sou um homem adulto e idiota ao mesmo tempo. Quarenta minutos olhando para o prédio de frente, um hotel três estrelas no centro da cidade, aquele tipo de lugar que não pede explicação pra ninguém. Recepção discreta. Câmeras que provavelmente existem mas ninguém vai rever. O tipo de lugar que o mundo criou exatamente pra essa situação.
Eu devia ter ido embora.
Não fui.
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Marcia estava na casa da mãe. Fim de semana de feriado, aquele tipo de visita que ocupa três dias e me deixa sozinho num apartamento que parece grande demais quando ela não está. Quatorze anos de casamento. Não falta amor, me convenci disso enquanto subia no elevador. Falta outra coisa que eu não sei nomear direito. Uma tensão que não se resolve com o dia a dia. Uma curiosidade que ficou guardada desde antes dela, desde antes de tudo, e que resolveu aparecer numa sexta-feira às oito da noite quando eu me vi com tempo demais e pensamentos de menos pra me distrair.
O site tinha sido recomendado por um colega. Com aquele ar casual de quem tá falando de um aplicativo de delivery. “Se um dia você quiser, é profissional, discreto, sem enrolação.” Eu tinha guardado o link na memória sem admitir que ia usar.
Usei.
A descrição dela era curta. Foto de rosto não aparecia. Tinha a silhueta, uma descrição de atendimento, e uma linha que ficou na minha cabeça: “Pode ser sua primeira vez. Eu fico confortável com isso.”
Mandei mensagem. Ela respondeu em vinte minutos. Combinamos o hotel.
E aí eu fiquei quarenta minutos no estacionamento.
O elevador do hotel cheirava a desinfetante e a uma fragrância de ambiente barata que tentava ser amadeirada. Quarto 412. Eu conferi o papel no bolso três vezes como se o número fosse mudar. O corredor estava vazio. Bati na porta com a intensidade de quem não quer ser ouvido mas precisa ser atendido.
A porta abriu.
Ela se chamava Isabela. Ou pelo menos era o nome que ela tinha me dito. Devia ter uns trinta anos, cabelo escuro até o ombro, vestido vinho curto com uma espécie de decote que não gritava mas sussurrava muito bem. O que me desarmou não foi a beleza, que era real, foi o sorriso. Não era o sorriso de trabalho que eu esperava. Era um sorriso de “eu sei exatamente como você tá se sentindo agora.”
“Pode entrar,” ela disse. Voz baixa, quente.
Entrei.
O quarto tinha uma cama de casal, abajur aceso no canto, a janela com as cortinas fechadas. Tudo neutro. Tudo projetado pra não ser nada além de um quarto. Ela fechou a porta com cuidado e me olhou de frente.
“Primeira vez?”
Não precisei responder.
“Fica à vontade. A gente não tem pressa.”
Ela foi até a beira da cama e sentou. Cruzou as pernas, tirou os sapatos, e ficou me olhando como quem assiste a uma cena interessante. Não tinha julgamento nenhum naquele olhar. Tinha paciência, curiosidade, e uma dose controlada de calor que me fez perceber que eu precisava parar de ficar parado na entrada do quarto como um homem esperando o ônibus.
Me aproximei. Sentei do lado dela.
“Pode me contar o que você quer,” ela disse. “Ou não. A gente descobre junto.”
Eu disse alguma coisa confusa. Ela riu, sem zombar. Se aproximou devagar, passou a mão no meu rosto com uma leveza que eu não esperava. Dedos finos. Perfume que não era doce nem forte, era aquele tipo de cheiro que te faz querer chegar mais perto pra identificar melhor.
Ela me beijou. Minha mão foi pra cintura dela sem eu decidir conscientemente fazer isso. Ela colocou a mão no meu pescoço e aprofundou o beijo, e eu senti o peso de todo aquele nervosismo de estacionamento começar a escorrer.
A gente ficou assim por um tempo que não sei medir.
Quando ela se afastou, foi pra tirar o vestido. Com a mesma calma com que tinha aberto a porta. Não tinha performance nisso. Tinha conforto. E esse conforto que ela carregava no próprio corpo foi mais excitante do que qualquer coisa que eu tivesse imaginado enquanto ficava parado lá embaixo.
Ela estava com uma lingerie preta simples. Corpo firme, curvas reais, um olhar que sabia exatamente o que estava fazendo. Me olhou e disse:
“Sua vez.”
Tirei a camisa. As calças. Me senti ridículo por meio segundo e então ela se aproximou de novo e o ridículo sumiu.

Ela me deitou na cama com uma mão no meu peito. Ficou de joelhos ao lado de mim, passou a língua no meu pescoço, na clavícula, desceu pelo peito com uma lentidão calculada. Eu respirava diferente. Não era a respiração normal de homem casado que chega em casa depois do trabalho, era uma respiração de quem não tem controle da situação e descobriu que isso é bom.
Quando a mão dela alcançou a cueca, já não tinha nada de meia bomba. Ponto de bala desde quando ela tinha aberto a porta, pra falar a verdade.
Ela tirou a cueca e foi descendo, a boca acompanhando o caminho das mãos. Quando a boca dela fechou em volta da neca eu fiz um barulho que agradeço que as paredes do 412 guardem pra sempre. Ela sabia o que estava fazendo de um jeito que vai além de técnica. Tinha atenção nisso. Presença. Me olhava de vez em quando lá de baixo com aquele olhar que misturava prazer próprio com prazer de ver o efeito que causava.
Fui segurando o quanto pude.
Não por muito tempo.
“Para,” eu disse. “Ou vai acabar aí.”
Ela sorriu. Soltou. Subiu até ficar de joelhos em cima de mim, tirou a lingerie com aquela mesma calma de antes, e se posicionou devagar, com controle, descendo sobre mim com um ritmo que ela comandava completamente.
Eu agarrei os quadris dela.
Ela já estava molhada, quente, e cada movimento que ela fazia me lembrava por que eu tinha ficado quarenta minutos num estacionamento sem conseguir ir embora. A culpa estava lá, não vou mentir. Mas estava quieta num canto da cabeça, e na frente de tudo estava ela, o peso do corpo dela, o barulho baixo que escapava da garganta dela quando encaixava direito.
Ela mudou de posição. Me virou de lado. Me virou de bruços.
“Relaxa,” ela disse no meu ouvido.
E aqui eu preciso ser honesto: eu não sabia que ia gostar disso.
A boca dela desceu pelas costas, pela cintura, pelas nádegas. Quando a língua dela chegou nas portas do fundo eu engoli seco e me segurei na lençol com os dois punhos. Não era nada que eu tivesse pedido, não era nada que eu tivesse imaginado conscientemente, era simplesmente ela lendo o meu corpo melhor do que eu mesmo e me levando pra um lugar que eu não tinha mapa.
O beijo grego que ela fez ali foi lento, deliberado, e completamente desconcertante no melhor sentido que esse adjetivo pode ter. Cada vez que eu ia gemer ela aumentava a pressão da língua e eu mordia o lençol pra não fazer barulho no corredor do 412. E o melhor: ela tirou da bolsa um lubrificante específico para beijo grego que deixou tudo mais intenso, nem sabia que isso existia.
Quando ela me virou de novo foi com uma suavidade que não combinava com a intensidade do que tinha acontecido antes. Subiu de volta, me montou de novo, e dessa vez deixou o ritmo acelerar. Mãos abertas no meu peito. Cabeça levemente inclinada pra trás. O barulho dela misturado com o meu num quarto de hotel que não vai aparecer em nenhum cartão de crédito.
Eu gozei com as duas mãos nos quadris dela e a mente completamente vazia.
Vazia do modo bom. Do modo que não acontecia há mais tempo do que eu quero calcular.
Ela foi pro banheiro. Voltou com uma toalha. Me tratou com aquele cuidado prático de quem sabe que o pós é parte do serviço mas que nela parecia genuíno. Ficamos deitados uns cinco minutos sem falar nada. Ela não perguntou nada sobre mim. Eu não perguntei nada sobre ela. Havia um respeito mútuo nesse silêncio.
Quando fui embora, o corredor ainda estava vazio.
No elevador que cheirava a desinfetante eu fiquei olhando pra minha própria imagem no espelho embaçado da porta. O mesmo homem que tinha entrado. Camisa levemente amassada. Cabelo que precisava de corte. Aliança no dedo, porque eu nunca tirei, porque tirar teria sido uma mentira maior do que qualquer coisa que aconteceu lá em cima.
No estacionamento, o carro estava onde eu tinha deixado.
Entrei. Liguei o motor. Fiquei sentado mais dois minutos.
Não sentia o que eu esperava sentir. Esperava culpa pesada, arrependimento, aquele nó de estômago de homem que fez errado. Tinha alguma coisa parecida com isso, sim. Mas tinha também outra coisa, menor e mais honesta: o alívio quieto de quem abriu uma gaveta que ficou trancada por tempo demais.
Mandei mensagem pra Marcia. “Tá tudo bem por aí? Saudade.”
Ela respondeu com um coração.
Coloquei o carro em marcha. Fui pra casa.
O apartamento estava exatamente como eu tinha deixado. Silêncio, luzes apagadas, a vida normal esperando onde sempre esteve. Tomei banho demorado. Me deitei no lado que é meu.
No teto do quarto eu não encontrei resposta pra nada.
Só encontrei o sono, chegando mais rápido do que havia chegado em semanas.
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