O homem que veio montar mais do que móveis
Eu não esperava que ele chegasse tão cedo.
Eram dez e dezessete da manhã quando o interfone tocou, e eu ainda estava com o cabelo preso num coque frouxo de domingo, de bermuda de malha e camiseta desbotada que usava só dentro de casa. Não era a roupa com que eu planejava receber ninguém. Mas o homem do outro lado da porta não parecia do tipo que julgava roupas.
Ele entrou com uma caixa de ferramentas numa mão e um rolo de instruções dobradas na outra. Alto. Não de um jeito que chama atenção à distância, mas do jeito que você percebe quando está perto demais. Os ombros largos que apertavam levemente o tecido da camiseta escura. As mãos. Eu reparei nas mãos primeiro. Largas, com calosidades que contavam histórias que eu nunca saberia, mas de algum jeito já imaginava.
“A estante fica no quarto?” ele perguntou, sem cerimônia.
Você é uma mulher que quer ganhar dinheiro extra ou está pensando em começar seu próprio negócio? Então, este guia é para você. “Começando a Revender: O Guia Completo para Iniciantes no Mundo do Empreendedorismo” é um caminho simples e claro para quem quer entrar no mundo das vendas.
Eu disse que sim. Ele entrou como se soubesse o caminho.
Me chamo Sofia e eu tenho trinta e um anos. Vivo sozinha há três. Tenho a vida que escolhi, o apartamento que decorei com gosto, os finais de semana que ocupo como quero. Não me falta nada que eu tenha pedido. Mas tem coisas que a gente não pede. Que chegam com caixa de ferramentas na mão, num sábado sem roteiro, e viram o dia do avesso.
Fui fazer café porque precisava de algo para fazer com as mãos.
Da cozinha, ouvia o barulho metálico das peças sendo separadas, o som das ferramentas, o silêncio que ele deixava entre um movimento e outro. Silêncio produtivo, de alguém que pensa enquanto faz, que não precisa de música pra se sentir confortável num lugar estranho. Aquilo, por si só, já era alguma coisa.
Levei uma xícara até ele sem pensar muito. Ele olhou de baixo, de onde estava agachado no chão com as peças espalhadas à volta, e aceitou com um aceno de cabeça que era quase sorriso. Quase, mas não. Os olhos escuros demoraram um segundo a mais do que o necessário no meu rosto. Não era impertinência. Era observação. Tinha diferença.
Eu saí do quarto fingindo que não tinha sentido nada.
Fui sentar no sofá com o celular, com a pretensão de responder mensagens. Não consegui ler uma linha. Minha cabeça estava no quarto. No barulho. No homem que me olhou sem precisar de desculpa pra isso.
Depois de quarenta minutos, ele veio perguntar se eu tinha alguma ferramenta que agora não lembro o nome. Eu levantei e fui mostrar. A distância entre nós no corredor estreito era de menos de um palmo. Eu passei primeiro. Senti o calor que vinha dele antes de qualquer toque.
“Aqui,” eu disse, apontando o painel.
Ele se inclinou por cima do meu ombro para olhar. O cheiro era de madeira, de trabalho e de alguma coisa que não tinha nome exato, mas que eu continuaria procurando por horas depois que ele fosse embora. Eu não me movi. Deveria ter me movido.
Eu virei a cabeça e o peguei de perfil, a menos de vinte centímetros. A linha da mandíbula. A sombra de barba que não chegava a ser barba. Ele virou e me pegou olhando.
Não havia jeito de fingir que era outra coisa.
A boca dele não mexeu, mas alguma coisa no rosto mudou. Sutil. Como uma porta que se abre apenas o suficiente para deixar entrar a luz, mas não o bastante para revelar o que está do outro lado.
“Pode deixar,” eu disse, sem saber exatamente ao que estava me referindo.
Voltei ao sofá. Não peguei o celular dessa vez.
Ele voltou ao quarto. Eu fiquei sentada na sala com a luz do corredor recortando o chão, e pensei: eu sou uma mulher adulta. Sozinha. Com um desconhecido atraente no meu quarto e um sábado inteiro pela frente. E a única coisa me separando do que eu queria era o medo de ter lido errado.
Eu me levantei.
Fui até a porta do quarto. Ele estava de costas pra mim, parafusando a última prateleira. A camiseta havia subido um pouco e havia uma faixa de pele bronzeada acima da calça. Eu fiquei parada. Ele percebeu antes de eu dizer qualquer coisa. Virou devagar, como se soubesse o que ia encontrar.
“Quer ver como está ficando?” ele perguntou.
Não era sobre a estante. Mas eu entrei de qualquer jeito.
A distância entre nós era quase razoável quando eu me aproximei pra olhar a prateleira montada. Quase. Ele estava atrás de mim, um passo apenas, e quando eu me virei pra dizer que tinha ficado bonito, a frase não saiu. A boca dele estava perto demais. Os olhos estavam no meu rosto, depois na minha boca, depois de volta nos meus olhos, num movimento lento e direto que não deixava espaço pra mal-entendido.
Fui eu que me movi primeiro.
Não com pressa. Com a consciência total de alguém que está fazendo uma escolha. Minha mão foi até o peito dele antes dos lábios, a palma aberta sobre o tecido da camiseta, sentindo o coração que batia de um jeito que me dizia que eu não estava sozinha nisso.
Quando eu beijei, ele ficou parado por exatamente um segundo. Depois envolveu minha nuca com uma das mãos, puxou levemente, e beijou de volta do jeito que me fez esquecer que tinha um mundo fora daquele quarto.
Não havia pressa nele, mas havia firmeza. Era a combinação que me desfazia.
Nos deslocamos até a cama com a naturalidade que eu não esperava. Ele me sentou na beira e ficou de pé na minha frente, olhando com aquela atenção calma que tinha desde o começo, e eu soube exatamente o que queria fazer. Não por impulso. Por escolha.
Meus dedos foram até o cinto devagar.
Eu olhei pra ele enquanto trabalhava no botão da calça, e o olhar que recebi de volta era denso, quente, controlado. Quando abri o zíper e a neca dele ficou à minha frente, firme, já no ponto de bala, senti aquele calor descer pelo centro do meu corpo e se instalar entre as minhas pernas com intenção.
Passei a língua primeiro. Devagar. Da base até a ponta. Ele não se moveu, não apressou, não colocou a mão na minha cabeça. Deixou. Aquilo me deixou louca de um jeito específico.
Abri a boca e tomei o que era dele.
Com calma. Com prazer. Com a atenção total de quem não está fazendo favor: está satisfazendo o próprio desejo. Eu gostava daquilo. Do calor, do peso, do controle que eu tinha sobre o estado dele enquanto ele ficava parado tentando não mostrar tanto quanto estava sentindo. Deixei minha boca trabalhar com ritmo, com pressão, com pausa calculada. Ouvi a respiração dele mudar. Senti a mão que finalmente pousou no meu cabelo com firmeza. Não pra apressar. Pra ter onde se segurar.
Quando ele disse meu nome, eu parei.
Ele me levantou com jeito de quem sabe o que está fazendo.

Ele me colocou no chão. A boca dele encontrou meu pescoço, depois meu peito, desceu devagar enquanto eu prendia a respiração. Quando chegou entre minhas pernas, eu já estava tão molhada que a primeira pressão da língua dele me arrancou um gemido que eu nem tentei segurar. Ele sabia o que fazia. Não de um jeito técnico, frio. De um jeito que parecia que estava prestando atenção em mim, especificamente, naquilo que me movia, no ritmo que fazia eu me apertar. Meu grelo estava nos lábios dele e eu estava completamente perdida.
Mas eu queria mais do que isso.
“Sobe,” eu disse.
Ele subiu e aproveitei para pegar uma camisinha.
Quando entrou, foi devagar. O suficiente pra eu sentir cada centímetro da chegada. Uma sensação que começava físico e virava algo sem nome, mais fundo, mais cheio. Fiquei parada por um instante só pra sentir.
Depois ele se moveu.
E eu entendi porque tinha ficado tão inquieta desde o começo.
Era aquela combinação: firmeza e atenção. Ele estava dentro de mim com o mesmo modo que tinha entrado no apartamento. Presente. Sem precisar de aprovação. Com a segurança de alguém que conhece o que está fazendo e gosta do que encontra. Cada macetada era densa, precisa, com profundidade suficiente pra me fazer fechar os olhos e largar qualquer pensamento que eu ainda carregava.
Não havia pressa.
Mas havia intensidade crescente. O ritmo foi aumentando com os sinais que eu dava sem palavras. A curva do meu quadril. A pressão das minhas mãos nas costas dele. O som que eu não conseguia mais segurar. Ele respondeu a cada um. Não era mecânico. Era conversa.
Quando o orgasmo veio, veio inteiro. Começou no centro e abriu como calor em onda, e eu me apertei ao redor dele com força enquanto ele aprofundava, uma última vez, e prendeu a respiração com a cabeça enterrada no meu pescoço.
Ficamos parados por um momento.
Depois ele rolou pro lado. Ficamos deitados olhando o teto em silêncio. Do lado de fora, o apartamento existia. A estante estava montada. O painel de luz estava ligado. Sábado continuava sendo sábado.
Depois de um tempo, ele se sentou na beira da cama e começou a se vestir com a mesma calma de quando tinha chegado. Eu fiquei olhando sem disfarce.
“Ficou boa,” ele disse, olhando pra estante.
Havia um sorriso pequeno no canto da boca. Dessa vez não era quase sorriso. Era um sorriso de verdade.
“Ficou,” eu concordei.
Não sobre a estante.
Ele pegou a caixa de ferramentas, guardou os restos de embalagem, anotou alguma coisa no celular. Na porta, parou. Me olhou uma última vez com aqueles olhos que me viam de um jeito que eu ainda não tinha me acostumado.
Saiu.
Eu fui sentar no chão do meu quarto, de costas pra estante nova, e fiquei pensando que existem tipos de montagem que não vêm com manual de instruções. E que eu não precisaria de um.
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