ilustração para conto de duas mulheres se beijando

Entre drinks e beijos: uma noite entre amigas

Eu deveria ter desconfiado daquela noite quando a Bia apareceu na porta da minha casa segurando uma garrafa e dizendo:

— Hoje eu quero esquecer que sou uma adulta responsável.

Eu comecei a rir antes mesmo de deixá-la entrar.

— Você nunca foi uma adulta responsável.

— Exatamente. Finalmente alguém me entende.

Bia era minha amiga havia anos. Éramos daquele tipo de dupla que não precisava marcar nada com muita antecedência. Às vezes bastava uma mensagem:

“Vamos sair?”

“Quando?”

“Daqui a meia hora.”

E pronto.

Naquela sexta-feira, uma amiga nossa tinha conseguido nossos nomes para uma festa que prometia música boa, muita gente e drinks suficientes para fazer a gente esquecer a semana inteira.

Quando chegamos, a festa já estava lotada.

A música estava alta, as luzes baixas e tinha gente por todos os lados. Bia segurou minha mão assim que entramos para não nos perdermos no meio da multidão.

— Primeiro objetivo da noite, ela gritou perto do meu ouvido.

— Qual?

— Drink.

— Você acabou de chegar!

— Exatamente. Estou atrasada.

Comecei a rir e fui puxada por ela até o bar.

Pedimos nossos primeiros drinks e brindamos.

— À nossa capacidade de tomar decisões responsáveis, eu disse.

— Então hoje não temos nada para comemorar.

Batemos os copos e rimos.

O primeiro desceu fácil.

Continuamos conversando, encontramos alguns conhecidos e fomos entrando no clima da festa. Quando percebi, Bia já estava aparecendo com outro copo na mão.

— Esse é para você.

— Eu nem pedi.

— Mas eu sou uma amiga muito atenciosa.

— Isso me preocupa.

— Bebe.

Peguei o copo.

Depois veio outro.

E mais tarde dividimos mais um porque, segundo a lógica completamente questionável da Bia:

— Se a gente dividir, conta como meio.

— Essa matemática não existe.

— Hoje existe.

Não demorou muito para nós duas ficarmos altinhas.

Nada de perder a noção do que estava acontecendo. Era aquela fase gostosa em que tudo parecia mais engraçado, a música ficava melhor e a vergonha começava a desaparecer.

Bia estava especialmente falante.

E perigosamente sincera.

Ela me olhou por alguns segundos enquanto bebia.

— Posso fazer uma confissão?

— Dependendo da confissão.

Ela chegou perto do meu ouvido para conseguir falar por cima da música.

— Você está muito gostosa hoje.

Eu quase engasguei.

— O quê?

Ela começou a gargalhar.

— Olha sua cara!

— Bia!

— Estou mentindo?

— Você não pode simplesmente falar isso.

— Por quê?

— Porque…

Parei.

Porque o quê?

Éramos duas mulheres adultas. Éramos amigas havia anos. Já tínhamos trocado milhares de elogios.

Mas aquele tinha soado diferente.

Talvez fosse o jeito como ela tinha falado perto demais do meu ouvido.

Talvez fosse o sorriso depois.

Ou talvez fossem os drinks começando a fazer efeito.

— Porque você está altinha, concluí.

Ela estreitou os olhos.

— Você também.

— Estou perfeitamente normal.

— Então fala meu nome completo.

Fiquei em silêncio.

Ela começou a rir.

— Sabia!

— Cala a boca.

— Faz eu calar.

Antes que eu pudesse pensar numa resposta, ela passou a mão pela minha cintura e me puxou contra ela.

— Bia…

— O quê?

Olhei para a boca dela.

Ela percebeu na mesma hora.

— Ah…

— Ah o quê?

— Nada.

Ela estava sorrindo daquele jeito provocador.

— Você olhou para minha boca.

— Não olhei.

— Olhou sim.

— Cala a boca.

— De novo isso?

Bia aproximou o rosto do meu.

— Então faz alguma coisa.

Foi impulso.

Segurei o rosto dela e beijei.

Não teve pergunta, discurso ou tempo para pensar demais. Só o choque inicial de perceber que eu realmente estava beijando minha melhor amiga no meio de uma festa.

Por um segundo, achei que ela fosse se afastar.

Bia fez exatamente o contrário.

Segurou minha cintura com mais firmeza e correspondeu ao beijo.

mulheres dançando na balada

Quando nos afastamos, ficamos nos olhando.

— Caralho — ela disse, começando a rir.

Eu também ri.

— A gente acabou de se beijar.

— Eu percebi.

— Bia…

— Você gostou?

— Não sei.

Ela levantou uma sobrancelha.

— Não sabe?

— Foi muito rápido.

— Ah, então esse é o problema?

Antes que eu respondesse, ela me puxou de volta.

O segundo beijo veio sem a surpresa do primeiro. Foi mais demorado, mais seguro, com nós duas finalmente entendendo que aquilo estava mesmo acontecendo.

Passei os braços pelo pescoço dela.

Bia continuou com as mãos na minha cintura, me mantendo perto enquanto a música tocava e as pessoas dançavam ao nosso redor.

Quando o beijo terminou, ela encostou a testa na minha.

— Agora deu para decidir?

Eu ainda estava sorrindo.

— Talvez.

— Talvez?

— Talvez eu precise de outro.

— Interesse puramente científico?

— Exatamente.

Ela riu e me beijou de novo.

Bia me beijou novamente e, dessa vez, a provocação foi ficando mais intensa. Entre beijos, mãos inquietas e risadas abafadas, fomos perdendo a timidez que ainda restava.

Em determinado momento, ela me lançou aquele olhar atrevido que eu já tinha aprendido a reconhecer naquela noite.

— Posso ir um pouco além? — perguntou.

Eu entendi perfeitamente o que ela queria dizer.

— Pode.

A partir dali, deixamos a provocação falar por nós. Fomos para o banheiro, entre beijos pelo pescoço, carícias e sussurros, acabamos experimentando uma intimidade que nunca tinha existido entre nós antes, inclusive um oral delicioso, daqueles que fazem a gente precisar controlar a voz para ninguém do lado de fora perceber exatamente o que estava acontecendo.

duas mulheres se beijando no banheiro

Foi coisa rápida porque o medo de alguém entrar naquele banheiro fez a gente acelar as coisas. Ela simplesmente agachou, colocou a minha calcinha levemente para o lado e passou a língua molhada no ponto certo. Três segundos depois eu já tinha gozado na boca dela.

Ela se afastou, sorriu, lambeu um dedo e enfiou em mim, começou a movimentar lá dentro de um jeito que só quem é experiente, sabe. Gozei de novo…Ela sorriu, se levantou e me beijou com vontade. Sentir o meu gosto nela foi surreal…

Saímos daquele banheiro como se nada tivesse acontecido, pegamos uma cerveja e voltamos pra pista. Não sei como a nossa amizade vai ficar depois desse dia, mas só sei que valeu a pena, nunca tinha gozado tão forte e tão gostoso.

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