O vizinho do 304: a noite em que tudo saiu do controle
A primeira vez que eu o vi foi numa terça-feira sem graça.
Eu carregava duas sacolas de mercado, o elevador estava demorando e ele saiu do apartamento 304 com uma camisa branca levemente aberta no colo, cheirando a sabão e a alguma coisa que eu não soube nomear na hora. Só soube que quis.
“Novo aqui?” eu perguntei, porque a pergunta era óbvia e porque precisava de alguma coisa para fazer com a boca que não fosse ficar aberta.
“Há dois meses”, ele disse. “Você que mora no 302?”
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Eu disse que sim. Ele disse que era Rafael. Eu disse que era Sofia. O elevador chegou, abrimos e fechamos os lábios algumas vezes sem produzir mais nada e cada um foi para o seu andar.
Eu larguei as sacolas no chão da cozinha e fiquei parada um segundo no meio nada.
Levei três dias para aceitar que tinha me ferrado.
O problema com Rafael não era que ele era bonito. Bonito eu já tinha conhecido e aprendido a ignorar. O problema era como ele me olhava.
Não era um olhar de assédio. Era o tipo de olhar que diz eu te vi de verdade antes que você tivesse terminado de aparecer. A gente se cruzava no corredor, na garagem, na área do lixo de quinta-feira, e ele sempre tinha essa fresta de atenção que ficava em mim um segundo a mais do que o necessário.
Eu comecei a prestar atenção em tudo que não devia.
No jeito que ele pousava a mão no corrimão. No volume baixo de alguma música que vazava pela porta do 304 nas noites de quarta. No cheiro que ficava no elevador depois que ele passava por lá.
E na aliança. Sempre na aliança.
Ouro fosco. Simples. Ficava na mão esquerda como um fato que eu precisava reler toda vez que esquecia.
Eu esquecia muito.
Foi numa noite de novembro que tudo mudou de peso.
Chuva grossa lá fora. Eu estava no corredor batendo na porta da minha vizinha para devolver um pacote que tinham entregado errado, quando a porta do 304 abriu.
Rafael estava de camiseta e calça de moletom. Cabelo ligeiramente bagunçado. Ele me olhou e eu percebi que estava com o cabelo molhado e a blusa colada e nenhum outro pensamento cabendo na minha cabeça além disso.
“Ela viajou”, ele disse. “A Mari. Viajou hoje cedo.”
Não sei por que ele me contou isso.
Não sei por que eu entendi tudo no mesmo segundo.
“Quer tomar um vinho?”, ele perguntou, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Eu fiz uma pausa de dois, três, quatro batimentos cardíacos.
“Quero”, eu disse.
O apartamento dele era parecido com o meu em estrutura e diferente em tudo o mais. Tinha livros em prateleiras reais, uma mesa grande com papéis espalhados, um abajur de canto que jogava a sala numa luz cor de âmbar.
A gente bebeu vinho e falou de coisas que não eram o que nenhum dos dois estava pensando. Ele perguntou do meu trabalho, eu perguntei do dele, a gente riu de alguma coisa que aconteceu no condomínio meses atrás. A conversa foi fluindo como conversa boa flui: sem esforço visível, com tensão escondida em cada frase.
Em algum momento ele se levantou para buscar a garrafa e quando voltou ficou de pé ao meu lado em vez de sentar no lugar onde estava antes.
Eu levantei o rosto para ele.
Ele não disse nada.
Nenhum de nós disse.
O primeiro beijo foi uma pergunta. O segundo foi uma resposta. O terceiro foi uma decisão.

A gente foi para o quarto sem pressa e sem cerimônia, como se já tivéssemos combinado antes. Ele ligou o abajur no canto, o quarto ficou na mesma luz da sala, e eu senti que estava dentro de uma bolha fora do tempo, onde aliança e condomínio eram conceitos de outro planeta.
Rafael me beijou devagar. Com aquela atenção que eu já tinha percebido no corredor agora toda voltada para mim, inteira, concentrada num ponto só.
Ele desceu os lábios pelo meu pescoço, pela clavícula. Eu enrolei os dedos no cabelo dele e fechei os olhos e decidi que me preocuparia com as consequências em outra vida.
Quando ele me deitou na cama e deslizou para baixo, eu entendi que o vinho tinha sido só o pretexto. O que ele realmente queria era isso.
Ele abriu a gaveta do criado-mudo e tirou um frasco pequeno. Eu olhei.
“Morango”, ele disse com uma sobrancelha levantada. “Tá bem?”
Eu ri, e o riso saiu mais aberto do que eu esperava, daquele jeito que acontece quando você está excitada e aliviada ao mesmo tempo.
“Tá mais do que bem”, eu disse.
Ele aqueceu uma gota do lubrificante entre os dedos antes de tocar em mim, e o calor chegou antes da sensação, e a sensação chegou antes de qualquer palavra que eu pudesse ter formado. Cheirava a morango de verdade, levemente adocicado, e ele desceu e abriu minha pepeca com a língua num movimento lento, decisivo, que não deixou espaço pra eu pensar em mais nada além de sentir.
Eu segurei o lençol com os dois punhos.
Ele não teve pressa nenhuma.
Trabalhou o grelo com a língua como se não tivesse outra coisa no mundo que valesse mais atenção do que aquilo. Circulos lentos que apertavam o ritmo quando eu arquejava, recuavam quando eu estava perto demais, voltavam quando eu achava que ia enlouquecer. O cheiro do lubrificante misturado com o calor da boca dele era uma combinação que eu não tinha previsto e não vou esquecer.
Quando ele finalmente me deixou chegar, eu deixei um som sair que eu normalmente guardaria para mim.
Não guardei.
Ele subiu devagar, me beijou. Eu provei o sabor de morango nos lábios dele misturado com o meu próprio gosto e algo girou dentro do meu peito que não tinha nome mas tinha peso.
“Você”, ele disse bem baixo, e não completou. Não precisava.
Eu puxei ele para mim.
Ele entrou devagar, com aquela atenção característica que eu já tinha catalogado como a coisa mais perigosa nele. Cada movimento medido, profundo, atento. Eu abri os olhos e ele estava me olhando do mesmo jeito que olhava no corredor, só que agora a distância tinha acabado e aquele olhar estava a centímetros do meu rosto.
Eu não desvisei.
A gente acelerou sem combinar. O ritmo foi subindo como temperatura de sala fechada, sem que ninguém precisasse dizer nada. As mãos dele na minha cintura tinham uma firmeza que contradzia a gentileza com que ele me tinha tratado antes, e eu gostei exatamente da contradição, do modo como ele podia ser as duas coisas ao mesmo tempo.
Ele enterrou a neca fundo e me ouviu. Prestou atenção nos sons que eu fazia e usou cada um como instrução. Quando eu prendi a respiração ele sabia que estava chegando. Quando eu envolvi as pernas nele ele soube que estava pedindo mais.
Eu vim pela segunda vez com a cara enterrada no pescoço dele, absorvendo o cheiro de sabão e de esforço e de alguma coisa que agora eu conseguia nomear: desejo. Era isso que eu tinha sentido no elevador naquela terça-feira. Era isso que tinha ficado no ar do corredor toda vez que ele passava.
A gente ficou quieto por um tempo depois.
A chuva ainda batia na janela.
Eu me levantei sem alarme, com aquela clareza estranha que vem depois de coisas que você sabia que iam mudar alguma coisa.
Rafael ficou de costas na cama, olhando o teto.
“Sofia”, ele disse.
“Não precisa”, eu respondi. Porque eu já sabia o que vinha depois. A Mari, a aliança, a complicação real de tudo aquilo. Eu não precisava ouvir de novo algo que eu mesmo tinha escolhido ignorar por uma noite inteira.
Ele assentiu.
Eu peguei minha roupa do chão, vesti no corredor e saiu sem barulho. Do meu lado do hall, encostei na porta por um segundo com os olhos fechados.
O condomínio estava quieto. Nenhuma câmera viu nada. Nenhuma porta se abriu.
Só eu sabia o que tinha acontecido no 304, e eu ia carregar isso com cuidado. Não de culpa. Não de arrependimento.
De lembrança.
Daquele olhar que ficava um segundo a mais. Do lubrificante de morango aquecido nos dedos dele. Do modo como ele disse meu nome antes de entrar em mim pela primeira vez, como se eu fosse uma frase que ele estava demorando para terminar.
Eu entrei no apartamento, botei a chaleira no fogo e deixei o silêncio do meu apartamento pousar.
Terça-feira seguinte, eu ia encontrá-lo no elevador.
E a gente ia fingir que não. Por enquanto.
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